Escrevendo por escrever

6 Reconstruindo o mundo O pai estava tentando ler o jornal, mas o filho pequeno não parava de perturba- lo. Já cansado com aquilo, arrancou uma folha – que mostrava o mapa do mundo – cortou-a em varios pedaços, e entregou-a ao filho.


- Pronto, aí tem algo para você fazer. Eu acabo de lhe dar um mapa do mundo, e quero ver se você consegue monta-lo exatemente como é. Voltou a ler seu jornal, sabendo que aquilo ia manter o menino ocupado pelo resto do dia. Quinze minutos depois, porém, o garoto voltou com o mapa.

- Sua mãe andou lhe ensinando geografia? – perguntou o pai, aturdido.

- Nem sei o que é isso – respondeu o menino. – Acontece que, do outro lado da



folha, estava o retrato de um homem. E, uma vez que eu consegui reconstruir o homem, eu também reconstruí o mundo. Pensando na morte Zilu perguntou a Confúcio (filósofo chinês, que viveu no século VI A.C).:

- Posso perguntar-lhe o que pensa sobre a morte?

Poder, você pode – respondeu Confúcio. – Mas se ainda não compreende a



vida, por que deseja saber tanto sobre a morte? Deixe para refletir sobre ela quando a vida já tiver acabado. Pagando o preço devido Nuxivan havia reunido seus amigos para jantar, e estava cozinhando um suculento pedaço de carne. De repente, percebeu que o sal havia terminado.

Nixivan chamou o seu filho:

- Vai até a aldeia, e compre o sal. Mas pague um preço justo por ele: nem



mais caro, nem mais barato.

O filho ficou surpreso:

- Compreendo que não deva pagar mais caro, papai. Mas, se puder barganhar



um pouco, por que não economizar algum dinheiro? - Numa cidade grande, isto é aconselhável. Mas, numa cidade pequena como a nossa, toda a aldeia perecerá. Quando os convidados, que tinham assistido a conversa, quiseram saber porque não se devia comprar o sal mais barato, Nixivan respondeu: - Quem vender o sal abaixo do preço, deve estar agindo assim porque precisa

desesperadamente de dinheiro. Quem se aproveitar desta situação, estará mostrando

desrespeito pelo suor e pela luta de um homem que trabalhou para produzir algo.



- Mas isso é muito pouco para que uma aldeia seja destruída. - Também, no início do mundo, a injustiça era pequena. Mas cada um que

veio depois terminou acrescentando algo, sempre achando que não tinha muita importância,

e vejam onde terminamos chegando hoje.





7 A falta de um tijolo Durante uma viagem, recebi um fax de minha secretária. "Ficou faltando um tijolo de vidro para a reforma da cozinha", dizia ela. "Envio o projeto original, e o jeito que o pedreiro dará para compensar a falta." De um lado, havia o desenho que minha mulher fizera: fileiras harmoniosas,

com abertura para a ventilação. Do outro lado, o projeto que resolvia a falta do tijolo:

um verdadeiro quebra-cabeças, onde os quadrados de vidro se misturavam sem qualquer

estética.



"Comprem o tijolo que falta", escreveu minha mulher. Assim foi feito, e o desenho original foi mantido. Naquela tarde, fiquei pensando muito tempo no ocorrido; quantas vezes, pela falta de um simples tijolo, deturpamos completamente o projeto original de nossas vidas. Epictetus reflete sobre o encontro Epictetus ( A.D. 55 – A.D. 135) nasceu escravo, e se tornou um dos grandes filósofos de Roma. Foi expulso da cidade no ano 94, e criou – no exílio – uma maneira de ensinar a seus discípulos. A seguir, trecho de sua “Arte de Viver”:

“Duas coisas podem acontecer quando nos encontramos com algúem: ou nos

tornamos amigos, ou tentamos convencer esta pessoa a aceitar nossas convicções. O mesmo

acontece quando a brasa encontra um outro pedaço de carvão: ou compartilha seu fogo com

ele, ou é sufocada por seu tamanho, e termina se extinguindo.



“ Como, geralmente, somo inseguros num primeiro contacto, tentamos a

indiferença, a arrogância, ou a excessiva humildade. O resultado é que deixamos de ser

quem somos, e as coisas passam a se dirigir para um estranho mundo que não nos pertence.



“Para evitar que isto aconteça, permita que seus bons sentimentos sejam logo

notados. A arrogância geralmente é uma máscara banal da covardia, mas termina

impedindo que coisas importantes floresçam na sua vida. “



Um conto de Kahlil Gibran Eu estava andando nos jardins de um asilo de loucos, quando encontrei um jovem rapaz, lendo um livro de filosofia. Por seu jeito, e pela saúde que mostrava, não combinava muito com os outros internos.

Sentei-me ao seu lado, e perguntei:

- O que você está fazendo aqui?

Ele me olhou surpreso. Mas, vendo que eu não era um dos médicos,



respondeu:

8 - É muito simples. Meu pai, um brilhante advogado, queria que eu fosse como

ele. Meu tio, que tinha um grande entreposto comercial, gostaria que eu seguisse seu

exemplo. Minha mãe desejava que eu fosse a imagem de seu adorado pai. Minha irmã

sempre me citava o seu marido como exemplo de um homem bem-sucedido. Meu irmão

procurava treinar-me para se um excelente atleta como ele.



“E o mesmo acontecia com meus professores na escola, o mestre de piano, o

tutor de inglês – todos estavam convencidos e determinados que eram o melhor exemplo a

seguir. Ninguém me olhava como se deve olhar um homem – mas como se olha no espelho.

“Desta maneira, eu resolvi internar-me neste asilo. Pelo menos, aqui eu posso



ser eu mesmo”. O encontro com o rei Um rei persa perguntou a Saadi de Shiraz: - Nas tuas caminhadas pelas cidades de meu país, costumas pensar em mim, e nas minhas obras? - Ó rei, eu penso em ti, sempre que me esqueço de Deus – foi a resposta do sábio.

9 O único culpado O sábio rei Weng pediu para visitar a prisão de seu palácio. E começou a escutar as queixas dos presos. - Sou inocente - dizia um acusado de homicídio. - Vim para cá porque quis assustar minha mulher, e sem querer a matei. - Me acusaram de suborno - dizia outro. - Mas tudo que fiz foi aceitar um presente que me ofereciam. Todos os presos clamaram inocência ao rei Weng. Até que um deles, um rapaz de pouco mais de vinte anos, disse: - Sou culpado. Feri meu irmão numa briga e mereço o castigo. Este lugar me faz refletir sobre o mal que causei. - Expulsem este criminoso da prisão imediatamente! - gritou o rei Weng. - Com tantos inocentes aqui, ele terminará por corrompe-los! Como ajudar o país Zizhang procurou Confúcio por toda a China. O país vivia um momento de grande convulsão social, e ele temia derramamento de sangue.

Encontrou o mestre junto de uma figueira, meditando.

- Mestre, precisamos urgente de sua presença no governo - disse Zizhang. -



Estamos à beira do caos. Confúcio continuou meditando. - Mestre, ensinaste que não podemos nos omitir - continuou Zizhang. - Disseste que somos responsáveis pelo mundo. - Estou rezando pelo país, - respondeu Confúcio. - Depois irei ajudar um

homem na esquina. Fazendo o que está ao nosso alcance, beneficiamos a todos. Tentando

apenas ter idéias para salvar o mundo, não ajudamos nem a nós mesmos. Existe mil

maneiras de se fazer política; não é preciso ser parte do governo.



Onde o macaco coloca a mão - É estranha esta expressão popular: "macaco velho não bota a mão em cumbuca"-comentei com um amigo - Mas tem sua lógica – respondeu ele. - Na Índia, os caçadores abrem um

pequeno buraco num coco, colocam uma banana dentro, e enterram-no. O macaco se

aproxima, pega a banana, mas não consegue tira-la - porque sua mão fechada não passa

pela abertura. Ao invés largar a fruta, o macaco fica lutando contra o impossível, até ser

agarrado.



O mesmo se passa em nossas vidas. A necessidade de ter determinada coisa – as vezes algo pequeno e inútil - faz com que terminemos prisioneiros dela. 10 Escolhendo o destino Há muitos anos atrás, vivia um homem que era capaz de amar e perdoar a

todos que encontrava em seu caminho. Por causa disso, Deus enviou um anjo para

conversar com ele.



- Deus pediu que eu viesse visitá-lo, e lhe dizer que Ele quer recompensa-lo

por sua bondade – disse o anjo. - Qualquer graça que desejar, lhe será concedida. Você

gostaria de ter o dom de curar?



- De maneira nenhuma – respondeu o homem. – Prefiro que o próprio Deus selecione aqueles que devem ser curados.

- E que tal, trazer os pecadores para o caminho da Verdade?

- Isso é uma tarefa de anjos como você. Eu não quero ser venerado por



ninguém, e ficar servindo de exemplo o tempo todo. - Eu não posso voltar para o céu sem ter lhe concedido um milagre. Se não escolher, será obrigado a aceitar um.

O homem refletiu um pouco, e terminou respondendo:

- Então, eu desejo que o Bem seja feito por meu intermédio, mas sem que



ninguém perceba – nem eu mesmo, que poderei pecar por vaidade. E o anjo fez com que a sombra daquele homem tivesse o poder de cura, mas

só quando o sol estivesse batendo em seu rosto. Desta maneira, por onde passasse, os

doentes eram curados, a terra voltava a ser fértil, e as pessoas tristes recuperavam a alegria.



O homem caminhou muitos anos pela Terra, sem jamais se dar conta dos

milagres que realizava, porque – quando estava de frente para o sol, a sombra estava

sempre nas suas costas. Desta maneira, pode viver e morrer sem ter consciência da própria

santidade.



Frustrado na busca O místico Ramakrishna começou a dedicar-se à vida espiritual desde a idade de dezesseis anos. No começo, chorava amargamente por não conseguir nenhum resultado - apesar de sua dedicação ao trabalho no templo.

Quando já era famoso, um amigo lhe perguntou sobre esta etapa de sua existência. Ramakrishna respondeu. -Se um ladrão passasse a noite em uma sala, com apenas uma parece fina separando-o de um quarto cheio de ouro, ele conseguiria dormir? Ficaria acordado a noite inteira, arquitetando planos. Quando eu era jovem, desejava Deus mais ardentemente do que o ladrão desejaria aquele ouro, e me custou muito a aprender a maior virtude da busca espiritual: a paciência.”

Khrisna escutará a oração A viúva de uma pobre aldeia em Bengala não tinha dinheiro para pagar o

ônibus para seu filho, de modo que o garoto, quando foi matriculado num colégio, iria ter

que atravessar, sozinho, uma floresta. Para tranquiliza-lo, ela disse:



- Não tenha medo da floresta, meu filho. Peça ao seu Deus Krishna para acompanha-lo. Ele escutará sua oração. O garoto fez o que a mãe dizia, Krishna apareceu, e passou a leva-lo todos os dias à escola. 11 Quando chegou o dia do aniversário do professor, o menino pediu a mãe algum dinheiro para levar um presente. - Não temos dinheiro, filho. Peça ao seu irmão Krishna para arranjar um presente. No dia seguinte, o menino contou seu problema a Krishna. Este lhe deu uma jarra cheia de leite. Animado, o menino entregou a jarra ao professor. Mas, como os outros presentes eram mais bonitos, o mestre não deu a menor atenção.

- Leva esta jarra para a cozinha – disse o professor para um assistente. –

O assistente fez o que lhe fora mandado. Ao tentar esvaziar a jarra, porém,



notou que ela tornava a encher-se sozinha. Imediatamente, foi comunicar o fato ao professor que, aturdido, perguntou ao menino:

- Onde arranjou esta jarra, e qual é o truque que a mantém cheia?

- Quem me deu foi Krishna, o Deus da floresta.

O mestre, os alunos, o ajudante, todos riram.

- Não há deuses na floresta, isto é superstição! – disse o mestre. – Se ele



existe, vamos lá fora para vê-lo! O grupo inteiro saiu. O menino começou a chamar por Krishna, mas este não aparecia. Desesperado, ele fez uma última tentativa:

- Irmão Krishna, meu mestre quer vê-lo. Por favor, apareça!

Neste momento, escutou-se da floresta uma voz, que ecoou pela cidade e foi



ouvida por todos: - Como é que ele deseja me ver, meu filho? Ele nem sequer acredita que eu existo!

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